24 de ago de 2010

COM HEMINGWAY NO VELHO CHICO



Uma peça, o cara. A barba já bem delineada e o domínio da arte de pescar surubins –varas de dois metros com meia flexibilidade, anzóis de 4 a 10/0 – não me deixavam dúvida. Tratava-se do velho Ernest Hemingway reencarnado na beira do São Francisco.

Fala curta, direta, mas sempre com um dado escondido, um segredo cofiado na barba e nas entrelinhas.

- É, se morreu nestas circunstâncias, algo ele devia – apontou com os beiços para uma desgraçada criatura de uma agrovila, todo esburacado de bala, calibre de traficante.

Área de plantação de maconha. Mas ele não era de falar nada além disso. Deixa quieto.

Falar mesmo, apenas sobre pesca. Chegara ali, numa ilhota perto de Petrolina e Juazeiro, havia um quarto de século. No mínimo. Quando aportou, cultivava farto bigode preto e cabelos penteados para trás, me contaram. A última parada havia sido o Janga, litoral norte de Pernambuco, arredores de Olinda. Alguns tubarões e mais de 84 horas de espera por um peixe grande, além das mortes banais de jovens, o enxotaram para a beira do velho Chico.

Hoje reclama da falta de dourados, piaus, matrinchãs, mandis, piras, timburés, tucanarés, corvinas...

- Com essa isca ai, cabrón, não vais a lugar nenhum - advertiu, cigarro de palha na boca. – Pega um pedaço de mandi branco ou uma lasca de coração de boi...

Eu tentava em vão capturar uma piranha.

- Com essa tua vara, não chegarás a elas - gracejou, enfiando a mão direita, cujas unhas guardavam terra nas pontas e tinta de fumo por cima, barba adentro.

Fiquei sem graça, amarelo.

O que o velho Ernest não sabia era que pouco importava o resultado da pesca naquela manhã.

- Quer um drinque? – ele perguntou, depois de um gole na boca da garrafa de Caribé.

- Melhor aceitar –soprou Zeca, amigo que havia conhecido durante a pesquisa de “Deserto Feliz”, película de Paulo Caldas, breve neste cinema.

- Muito boa, só um rum cubano chega perto – eu disse.

A provocação com a sua vida passada, senti, não caiu bem. Um cardume de pirapetingas fez a curva no velho rio. O barco mal-assombrou-se em águas plácidas. P


o resto o Trénet, canta...




2 comentários:

frassinetts disse...

piraaaaaaaaaaaaaanha...
...é um peixe feroz! de são francisco!
velho alípio...

Anônimo disse...

muito bom, só um detalhe: é tucunaré.