18 de ago de 2010

PELA VOLTA DO CAFUNÉ


Dos dengos feimininos, ou historicamente femininos, o que mais nos faz falta é o cafune.


Nos dias avexados de hoje, não há mais tempo nem devoção para os delicados estalinhos no cocuruto do mancebo.


Pela volta imediata do mais nobre dos gestos de carinho e delicadeza. Nem que seja pago, como o sexo das belas raparigas dos lupanares, mas que devolvam às nossas cabeças.


Pela criação imediata da Casa Dos Cafunés Gilberto Freyre, como me propõe, em sociedade, a amiga Maria Eduarda Belém. Ótima idéia a ser espalhada pelo país. Milhares de casas, guichês, varandas, redes debaixo de coqueiros, sofás na rua... Tudo a serviço dos breves e deliciosos estalinhos dos dedos das moças.


Gilberto Freyre era um entusiasta do cafuné e ele dedicou páginas e páginas. GF, aliás escrevia como quem dá cafuné, prosa mole, ritmo dos mais sensoriais. Como também assenta palavras outro Freire, sem o estilingue do Y, o Marcelino de Contos Negreiros.


Que machos & fêmeas sejam treinados, em um programa social de emergência, para reaprenderem o habito do cafuné.


Melhor; Que seja feita uma campanha de saúde pública. Ah, quantas doenças de fundo nervoso seriam evitadas, quantos barracos de casais seriam esquecidos, quantos juízos agoniados seriam libertos!


Sem falar no erotismo que desperta o dengo, como anotou outro sociólogo, o francês Roger Bastide, no seu belo ensaio “Psicanálise do Cafuné”. Pura libido.


Delicia de se sentir, beleza de se ver. O Cafiuné de uma mulher em outra, ave palavra! Puro cinema, para muito além do lesbian chic.


Como era comum, na leseira do fim de tarde, nos quintais e nas calçadas.


Ao luar, então, sertões e agrestes adentro, era puro filme de Kurosawa. O resto era silêncio.


Ai que preguiça danada, ai que arrepio no cangote, quero de volta meus cafunés.


Viver de brisa, como na receita de Bandeira, numa rede da Rua Aurora, sob a graça dos dedos de uma morena jambo, ou de uma morena caldo de feijão.


Como pode uma criatura, como esses rapazes de hoje, passar pela vida sem provar do êxtase de um cafuné?


Pela obrigatoriedade do cafuné nos recreios escolares, nas missas, nos cultos, nos intervalos dos jogos de qualquer esporte.


Não é possível que se condene toda uma geração a viver sem cafuné. Eis uma questão de segurança nacional. Tão importante como aprender a assinar o próprio nome. O cafuné, aliás, é a assinatura em linda e barroca caligrafia de mulher.



Texto de Chabadabadá, página 106/107.

4 comentários:

Van. disse...

Tá faltando homem pra receber esse cafuné!

Carol disse...

eu faço cafuné no meu namorado. ele tá inclusive bem mal acostumado. rs

Rogerio Pelegrim disse...

Ah, Van! Não diga isso "tá faltando homem". Olha a gente aqui, pô! rs

Van. disse...

Não tô achando esse povo não, hahahaha!