15 de set de 2010

BALADA PARA UM AMOR DEFUNTO



Ela mija na minha cova. Sinto que é ela, que mais uma vez chega, de mansinho, antes dos primeiros vermes.

Ela reza:

"Filho da puta, fraudulento, que amor era esse, fogo que arde um caralho, deveras sente?"

Por vingança, reescreveu meu epitáfio.

Eu havia entregue à desalmada, num envelope lacrado, a frase pretendida. Naquele mesmo dia em que comemos o nosso próprio fígado envenenado, foie-gras de todas as ressacas, rancores do cão, bílis, bílis, bílis, quizás, quizás, quizás.

Ficou ridículo meu epitáfio, como toda carta de amor. Vingança, vingança, vingança afinal.

Bebo o mijinho dela aqui debaixo dos seus pés. Ela, viúva dadivosa, pintou as unhas cor-de-terra.

Veio com uma saia linda, igual àquela da moça do filme Blow up, que eu dizia que gostava. A fela-da-puta deu pra fazer meus gostos agora.

Não é tarde nunca para um cão vadio.

Cortou os cabelos. Aqui debaixo a sensibilidade para observar essas coisas também aumenta.

O mijinho escorre minha cerveja possível e tem gosto de choro antes de foda.

O primeiro verme chega e fala:

"Amaste de verdade?"

"De muito", digo.

"Não sinto o cheiro disso na carne!", o verme provoca.

"É fragância que passeia com a alma", arrombo.

Ela abre um vinho barato.

Liga o cd system.

"Requiem pour un C..."

"Relax baby be cool".

"Partie perdue".

Só Serge Gainsbourg na tortura lá de cima.

Ela faz um picnic sobre minha cova.

Vinho com roquefort.

Os vermes se aproximam.

Ela em voz alta, sem citar a fonte:

"Quando o homem, com o seu piedoso senso de relatividade, olha pelo telescópio e se maravilha ante a imensidade da criação, pretende confessar que logrou êxito na redução do ilimitado ao limitado. Adquire, na verdade, um cruzamento óptico sobre a grandeza infinita de uma criação que lhe é insondável. Que importa se conseguiu pôr mil universos dentro do foco de seu telescópio microscópico? O processo de ampliação só faz ressaltar o senso de miniatura. Mas o homem se sente mais à vontade em seu pequeno universo, ou finge sentir-se, quando descobre o que jaz por trás das suas fronteiras".

O sétimo verme chuta: "Plexus".

Um outro metido: "Nexus".

O próximo: "Sexus".

"Em seu vestido persa bem justo, que combinava com o turbante, ela estava encantadora", lembro desse começo de livro não-sei-de-quem.

O sétimo de novo: "Plexus".

Ela cospe na minha cova, mas sem querer, pedaço de cortiça na garrafa.

A carne apodrece, os ossos viram pó, aqui jazz o amor.




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